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sexta-feira, março 06, 2009

A. & B.

o que a distinguia das demais era sua força interior. nunca fora escrava de suas circunstâncias, mas, pelo contrário, armava-se de uma coragem que não se sabia de onde vinha, e encarava os fatos. nessa manhã, olhou o rapaz nos olhos enquanto o bombardeava com seus pensamentos. chamou-o de rude, de insensível, disparou todo o seu arsenal de maus adjetivos, seriam mesmo maus, ou apenas o reflexo de alguns meses maus experimentados? chegando ao fim, notou que em seu rosto, no de A., quase não havia expressão, havia algum descontentamento, mas nenhum sinal aparente de contrariedade. tentou fazer com que ele reagisse, mas ele nada dizia. deu uns passos para trás na tentativa de que, achando que ela partiria, ele fizesse alguma coisa. deu certo. ele estendeu a mão, tentando impedi-la. reconciliação. a mão suspensa no ar indicava que ele tinha esperança, nunca tal gesto disse tanto a B. ela aguardou. a face antes inexpressiva deixou mostrar sinais de comoção. uma lágrima. a partir daí, palavras. muitas. corridas. tensas. a partir daí, razões. muitas. coerentes. seu coração encontrando o meu, ele dizia. mas eu não sei dizer, nunca soube, ele anunciou. ela entendeu, como eu e você entenderíamos, que só se tratava de perspectiva, não era rude, não era insensível, mas não era assim que ele sabia amar. não com as palavras. através delas agora, num esforço incrível, ele tentava reaver o tempo perdido, reparar o mal instaurado. nunca esteve tão certo de alguma coisa, nunca fora tão convicto de que B. era sua. e se não conseguisse provar, e se não conseguisse fazê-la sentir o mesmo? o coração batia forte. B. ouvia atenta como se decorando o rapaz. Era a primeira vez que o via assim, vulnerável, tão dela, tão entregue. um aguardava o outro, um esperava que o outro fosse ou desse um pouco mais. nos instantes que se seguiram, sorriram um pouco, falaram um pouco e de novo sentiram paz;

sábado, julho 26, 2008

como B. explica a linguagem

"A linguagem = nem sei se eu a tenho ou se ela me controla. Sinto agonia tem vezes. Quero dizer, rrrr, mas não consigo, não sai, não corresponde ao que imaginei. Luto com as palavras. Sempre. Eu volto. Tento apagar, passar uma borracha mental naquilo que saiu estorvado. Gosto de expressar, de ser exata, de desenhar com letras e de te dar uma imagem do meu coração. Sem romancear. Só para dizer. Dizer. Libertário. Quero falar mais e tu queres me ouvir. Alcancei teu coração com essas palavras meigas que bolei, arquitetei no cantinho do meu quarto. Eu invento, baby. Faço um fingere do real das minhas emoções pra você ler. Finjo, mas não minto, sacas? Amo-te assim como existo, relação de conformidade, causalidade, consequência, temporalidade, condicionalidade, ou seja, tudo que as adverbiais me permitem. Você está entendendo? Meu amor é daqueles que me obriga a dizer, amo assim, com palavras calculadamente pronunciadas, pra te agradar. Uma linguagem facista que obriga a dizer, (como ensina Barthes) assim como um amor facista que não me deixa opção além de te amar e de te querer. Vês? Não queria romancear. Mas não me restam alternativas. Sou obrigada a dizer. a amar. a fingir, poeticamente, claro. Obriga-me a tua leitura a acabar isso aqui com um final legal, mas ele não há. Nem a leitura há, afinal. Oras, só estou pensando! E outra, já chegou o ponto. Vou descer do ônibus."


"A língua, como performance da linguagem, não é nem reacionária nem progressista; ela é simplesmente fascista; porque o fascismo, não é impedir de dizer, é obrigar a dizer"Leçon inaugurale au Collège de France, 1977

terça-feira, julho 01, 2008

como B. explica a saudade

"Mas você cisma em me escapar. Eu retorno, eu insisto, te procuro. Mas você persiste em escapar. É a tua memória que eu quero, o teu sorriso que esquenta, a tua voz macia. Mas não me recorda, porque você cisma em me escapar. É como se o cometa fugisse ao Pequeno Príncipe. É como se a sombra fugisse àquele que a produz. Você cisma em me escapar, mas não é capaz. O tempo fez isso. A distância fez isso. E tento tanto te recuperar, mas você cisma. Cismadamente meu. Meu poder em te reconstruir já é maior, hábil pela prática. Penso você, como obra da mente, da lembrança duvidosa. Quero memória viva, falante, presente e capaz de te fazer real. Mas calma que o amanhã bate à porta. Nem faz tanto tempo assim desde o último instante. É que nada substitui o teu real, a minha ficção me serve por instantes, mas nada é como a tua vivência. É que as memórias me escapam, como borboletas avessas à rede, como areia pelos dedos. É o teu estar que poetiza a minha vida, que me entrega canções de manhã cedo e que me dá olhares curiosos pela felicidade que mal se explica."